
FolkasE foi preparada uma festa. A música era diferente, cigana como os ventos que vinham do norte e dispersavam os espaços. Era noite em que se deitar no chão virava brincadeira e os passos eram marcados pelas gaitas estrangeiras, por instrumentos esquisitos.
Música estranha que vira roda, que gira o mundo, que espanta tristeza. Ela se deitou e , enquanto fechava os olhos, ele desenha uma história ao seu redor. Com giz, marcava as linhas que um dia seriam apagadas pelo tempo. Quem se importa? Os segundos, estagnados ali, eram guiados por pequenas estrelas que ele pediu para que o céu mandasse para que ela fosse iluminada.
Naquele momento, ali existia um menino e a ciranda que ele decidiu entrar pra saber viver. Era doce! E perdido naquele sabor musicado, ele se transformava naquilo que foi um dia e escondia agora.
Dizem por aí que quem conheceu a estória conta que aquela era uma festa, tinha música, felicidade, cores... e foi assim, de verdade. Tudo ali acontecia, mas com um sentimento que, quem tá de fora, seria capaz de imaginar.
Ainda quando velho, sentado embaixo de sua árvore preferida que brotou no momento em que ela se jogou na terra, ele lembrava de cada fração de tempo que o ensinou a viver. Foram apenas 5 minutos de festa pra um menino que descobria o amor, mas isso aos olhos dos outros.
Para ele, foi a eternidade que jamais lhe presentearam novamente.
Texto: Nathalia Belisse Triveloni
Ilustração: Silvio Pequeno
AlguémNão, desta vez eu não farei texto referente a esta foto do meu olho. Aliás, eu a coloquei aí, pois esta sou eu e aqui vou contar algo que faz parte da minha história.
Semana passada, abri o orkut e um guri, com seus 16 anos, me pediu para adicioná-lo. Fiquei tentando lembrar quem era, se fazia parte de meus alunos ou algo parecido. Confesso que eu o adicionei para poder mandar uma mensagem que me esclarecesse aquela que ele explicitava a sua felicidade por ter me encontrado ali. Escrevi um pequeno texto e, horas depois, ele me respondeu. Tempos atrás, o menino achou um texto meu, em um painel de um concurso literário que sempre participo e se encantou com o que eu havia escrito. Desde então, ele procurava todos os meus outros escritos na internet. Segundo ele, abusando da sorte, decidiu me procurar por estes sites sociáveis para dizer o quanto admira meu trabalho e como queria falar comigo.
Eu fiquei muito, mas muito impactada. Nestes 8 anos que escrevo, recebi três mensagens destas que o tempo, as dificuldades e tudo mais jamais apagarão. Saber que alguém é impactado por sua obra não tem preço!
Foto: Carol Loução
Texto: Nathalia B. Triveloni
Em brancoDo tudo, só o nada persiste. O meu nada é cheio de coisas, todas correndo ao mesmo tempo e se desmanchando no ar. O concreto evaporou e, agora, a folha branca aguarda o meu espaço pra tentar contar uma história. Difícil, ela quer a minha história.
Ok! Meu castelo ruiu e só me resta uma mochila, você (esta folha) e ar nos meus pulmões.
Disseram que a vida é feita de desconstruções e elas são tudo o que temos. Então quer dizer que do pó viemos e das suas partículas temos que achar o caminho?
Respirando, respirando...eu vou achar, eu vou me achar nisto tudo, ainda bagunçado, mas que fala o que eu sou. Muito além da tatuagem na minha pele, tenho gravado em mim átomos de vida. Nelas, meus sonhos, os tijolos, pedras no caminho, flores cultivadas, espaço sideral, vento. Corações partidos, metades, o mar, tesouros achados, tempo quase perdido e viagens. Assim, chego à conclusão que eu me tenho. O que fazer com tudo isso? O que fazer de mim?
Eu vou fazer o que quiser. A maior dádiva da vida é ter a chance de recomeçar...
Texto: Nathalia B. Triveloni
Ilustração: Manassés Machado. Londres- Maio de 2009.

Sabe os girassóis? Aquelas flores amarelas, grandes, tão desajeitadas? Muito prazer. Aqui, é a história do meu girassol que encontrou alguém por quem a inspiração brota de uma forma tão forte que faz com que tudo faça ou não sentido.
Uma flor que escrevia se inspirando no mundo, nas injustiças, na sede por aquilo que é grande, mas nunca soube falar do amor em suas palavras.
Um dia, o girassol murchou, as pétalas caíram e ele pensou muitas vezes que nem sementes poderia deixar, já que o mundo estava seco e a única prova de vida era aquele coração em pedaços e úmido, bem úmido.
Contudo, girassol que é girassol, sabe voltar à vida se encontra alguém que saiba cultiva-lo com muito carinho. As minhas sementes existiam e, com aquilo que se chama de amizade, uma enorme luz soube faze-las renascer. Os pedaços daquela flor foram se reconstruindo, achando seu espaço no mundo e crescendo com aquele sentimento tão bom, mas tão bom, que o mundo era pequeno demais pra caber aquele pulsar tão cheio de vida.
Como boa flor, ela se derramava em pétalas, pois aquela luz a ajudava crescer, crescer, fazendo com que tantas vezes ela alcançasse o céu. Ali, ela existia, ela era vida e sorriso de uma forma inexplicável. Mas como explicar um presente daqueles? Como falar pro mundo que uma luz foi capaz de passar dias e dias só te vendo se desmanchar e anos, dois anos, te ajudando a colher suas partes e se fazer de novo?
O Girassol teve vontade de escrever, mas não sabia como. Algumas pessoas haviam passado por sua vida, mas nenhuma teve dela uma palavra se quer. Ela tentou, sabia que aquilo era tão importante quanto nascer de novo. O que seria aquela profusão de sentimentos que o cercava?
A flor, frágil e forte ao mesmo tempo, percebeu que era impossível escrever a sua história se sua luz não fizesse parte dela. Ela desabrochou novamente e se entregou aquilo que chamam de amor. Aquela loucura que cultiva borboletas no estômago, que torna o mundo colorido, que nos faz sofrer também, mas que nos preenche tanto que nada mais faz sentido.
O Girassol escreveu, e escreveu e escreveu. Agora, ele podia contar ao mundo que o amor é real e mesmo que a eternidade tenha 1 segundo, ela existe. O Girassol vive, com alegrias, algumas tristezas, mas tem aquela luz ao seu lado, numa troca de vida, de sonhos, de felicidade. Ele agradece a Deus, por ter feito a natureza perfeita para plantas e luminosidades tão sem perfeição.
Ah, amor! Faz da vida uma canção, um papel que cabe num texto, um jardim que recomeça, um céu que muda conforme o nosso humor. A minha arte compondo a luz que a desenha e a faz existir de uma forma diferente...
“Tú me acostumbraste
A todas esas cosas
Y tú me enseñaste
Que son maravilhosas...”
Texto: Nathalia B. Triveloni
Ilustração: Maurício Araújo
"Você não sabe o quanto caminhei pra chegar até aqui..."Dificilmente, faço deste espaço um diário direto. Ando escrevendo muito sobre os girrassóis e, sem dúvida alguma, me considero um deles. Sou meio esquisita, utópica, na real, acho que tudo isso nada mais é do que características de quem acredita, tem fé e coragem.
Amanhã, será um grande dia. Pegarei um canudo vazio e ele me dará um profissão. Contudo, não sou um número, um crachá, um diploma. Eu sou alguém que, mesmo depois de 4 anos de lutas, aprendizados, de castelos derrubados e convicções construídas, ainda acredita que "Estamos aqui pela humanidade".
Eu, com meu jeito inocente, com a característica de artista de sonhos, ainda acredito que tudo pode ser diferente e começa só pelo primeiro passo de olhar a pessoa que está do meu lado.
Nada foi em vão, nem mesmo aquelas aulas inúteis que te ensinam a como agradar seu chefe, eu aproveitava e fazia poesias nelas. Eu acho que minha maior faculdade foi a vida, as pessoas que me fizeram querer ser alguém melhor, que me permitiram errar, que me ajudaram nos acertos e a perceber que somos gente. Gente fraca, gente forte, gentu junto, enfim, gente!
Hoje, posso dizer que sou bem diferente daquela menina que pintou o rosto de preto, se encheu de adesivo e gritava "Chega de bomba, chega de ataque, fora imperialismo do Iraque". Hoje, aquela guria está mais madura, mas não perdeu seus sonhos. A garotinha de cabelos vermelhos continua viva e mais criança do que nunca, mais munida de perguntas, respostas e vontade de mudar a caretice toda. Como é bom não perder a fé na humanidade e, principalmente em nós mesmos. "Você acredita em Deus? Como, se é uma cientista?". Ah, baby, eu nunca fui muito convencional mesmo. Acredito sim, como acredito que a maior preciosidade que alguém tem é a própria inocência e os sonhos permitindo com que esta pessoa saiba que é capaz de fazer diferente e ser a diferença por isso.
Adorei este desenho não só pelo carinho que ele foi feito, mas porque meu cabelo mudou, tá curto. Sim, meu caro, é uma metáfora. "as coisas velhas passaram e tudo se fez novo".
Hoje, é um novo dia =D
Texto: Nathalia B. Triveloni
Ilustração: Zitone
O livro dos dias... (Para Mário Quintana)
E assim, num epitáfio diferente dos seres normais, encontra-se a célebre frase “Eu não estou aqui”. Isto prova como nem todos os humanos são mortais. Basta começar a ler o livro dos dias e sentir, com suavidade, aquele cheiro de papel gasto, rabiscado, manuseado sempre com intensidade e escrito com desejo. Páginas em branco não se encontram. O que tem ali são poemas insanos, são piadas de Deus, são amores possíveis, platônicos, confissões que só quem nunca abandonou uma adolescência confusa, mas cheia de infância conheceu. Palavras que entregam beijos que levaram a alma, lágrimas que brotaram de uma saudade intensa, lembranças daquela velha árvore que um dia se sentou e com ela apreciou um mundo, visto do alto de seus galhos infinitos. Não foi apenas uma passagem pela vida, foi o bebe-la, matando a sede com os gostos que não se esquece. Foi aprender que tudo pode ser infinito, mesmo durando três segundos. Descobrir que amor se faz com paixão e aí sim conseguimos fazer com que o mundo se mova. Saber que, algumas vezes seremos esquecidos, mas pediremos que isso seja feito de uma forma lenta para que pelo menos um pedaço pequeno nosso permaneça. Acreditar em discos voadores e implorar, algumas vezes, para que eles nos abduzam... e o sonho acaba quando percebemos que eles estavam bem mais interessados era na vida dos insetos. Ali, todas as confissões foram negadas aos padres e levadas a um certo Deus, por meio de poemas que não se importaram com pecados e nem anjos rebelados... poemas puros que despiram por completo a alma humana e fez com que a todo instante ela gritasse, de uma forma profunda.
E quando a última linha for lida, teremos a noção de que aqueles sapatos floridos andaram pelo mundo e o marcaram de uma forma profunda... pra sempre.
Texto: Nathalia B. Triveloni
Ilustração: Thiago Steckellberg
Conselho de gente miúdaAprender é tão relativo, tão além dos olhos. Aprender a encarar certas coisas e ficar pensando. O momento nosso, no espelho, de cara com a nossa própria cara, com a nossa crua verdade. E nestes dias, a gente se pega sentando, pedindo pro mundo sumir e você ficar ali, quieto, respirando, somente respirando, se possível.
Nada é confiável, nada te dá conforto ou paciência. Uma pausa, um momento, algo seu, perdido ali, jogado em qualquer canto...assim, a gente nunca consegue se achar.
Gente grande não entende de ficar triste, não observa conforto em qualquer lugar.
Gente pequena é sábia, é pura. Não te questiona, apenas te olha e te entende, sem precisar que você relate passo a passo, em estilo freudiano o que te dói. Gente pequena sabe, talvez porque sinta de uma forma mágica e tão simples. Gente pequena te permite a pausa de compassos, um silêncio tão seu:
- Por que você tá com esta carinha tão triste: ?
- Porque hoje eu tô triste. São coisas da vida.
- Eu sei como é, dói.
- É. Eu gostaria de ficar na minha cama, embaixo das minhas cobertas, escondida de todo mundo, pra ninguém me achar.
- Eu já passei por isso, mas vai passar.
Quem aí é gente grande e quem é gente pequena? ?
Eu aceitei o conselho óbvio e mais aconchegante. Pois é, sabemos que vai passar, vai voltar, mais há de passar. Na pessoa miúda, eu achei conforto, eu quis acreditar que isso, de alguma forma, vai embora e que ela sabe de como tudo dói. Gente grande não entende nada mesmo.
Para Débora Araújo, a pessoa miúda que me deu carinho.
Texto: Nathalia B. Triveloni
ilustração: Débora Araújo